[Opinião] Para bolsonaristas, professor tem que ser “agente 007”
Por: Blog da Folha
Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), cientista político pela UFPE e jornalista.
A declaração do senador Major Olimpío (PSL) de que a tragédia da escola estadual Professor Raul Brasil em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, seria evitada caso os professores tivessem porte de arma, por mais absurda que seja, não é isolada. A maioria dos bolsonaristas defendem esse tipo de posse e até o próprio presidente da República Jair Bolsonaro confessou que dorme com um revólver ao lado da cama, mesmo com o esquema de forte segurança no Palácio da Alvorada.
Essa propagação por mais armas de fogo circulando entre “cidadãos de bem” vai de encontro as pesquisas científicas. Segundo o levantamento do Altas de Violência 2018 houve um aumento de 40 para 71% do percentual de homicídios no País entre os anos de 1980 e 2016. A amostra também revela que esse número seria 12% maior sem o Estatuto do Desarmamento.
Vale lembrar que o ministro da Justiça Sérgio Moro, em defesa do porte de armas, minimizou esses tipos de trabalhos acadêmicos. Paralelo ao discurso de porte de armas, os professores no Brasil nunca estiveram tão desestimulados. De acordo com pesquisa feita pelo Movimento Todos Pela Educação, 49% dos docentes não indicam a carreira para os iniciantes no mundo acadêmico. Baixos salários, pouca estrutura de trabalho, falta de reconhecimento, e até agressões físicas, são alguns dos exemplos para a evasão de educadores nas instituições de ensino.
A ideia do Escola Sem Partido, adotada pela maioria dos governistas, de acabar com “o marxismo cultural” em sala de aula pode ser mais um motivo de afastamento dos professores. O discurso de formação política em sala de aula indo em contraponto “aos valores da família”, dito pelo vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PSC), em entrevista à jornalista Leda Nagle, é de quem parece não reconhecer a realidade das escolas.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a escola é um espaço de formar cidadãos, ou seja, um ser crítico da realidade que os cerca. Além disso, as instituições de ensino precisam ser um local de acolhimento, de diálogo e de proximidade entre família, professores e alunos. É a comunidade escolar e não só o professor que estimula o desenvolvimento das potencialidades do discente.
Estes são seres pensantes que podem se identificar com qualquer disciplina, conteúdo e educador. Isso tudo está imerso na prática social de responsabilidade dos espaços de ensino. Pois é, essas funções não tornam o aluno um potencial militante comunista devorador do conservadorismo brasileiro.
As funções pedagógicas provam que o uso de armas por professores pode blindar o professor perante o aluno. Em vez de aproximação, medo. Em vez de acolhimento, distância. Além do mais, é um contrassenso dos próprios bolsonaristas deixar os educadores com porte de arma de fogo. Como assim os “doutrinadores marxistas” armados em espaços de ensino? Será que vai ter seleção de quem pode ou não pode utilizar armamento? Os governistas precisam se decidir.
No aguardo do edital para “agentes 007” das salas de aula. Entre os não-bolsonaristas quem com certeza não deve gostar da ideia de educadores portadores de armas é o ex-governador Beto Richa (PSDB). Lá no Paraná deve ser perigoso ter professores com munições além de pilotos, livros, canetas e apagadores. Deve ser um “mal necessário”.

























