Avião pesado: Dilma, Lula, Collor, Sarney e FHC, juntos

Carlos Chagas
Fica fácil imaginar um diálogo de mudos a bordo do avião presidencial que estará levando para a África do Sul, além da presidente Dilma, os ex-presidentes Lula, Fernando Henrique, Fernando Collor e José Sarney. A menos que algum antigo chefe do governo, por razões de saúde, tenha desistido da viagem, a previsão é de que passarão em silêncio longas horas juntos. E, em especial, de que nem por milagre falariam de política, exceção de alguns comentários sobre o que se passa além de nossas fronteiras. Jamais no Brasil. Contadores de casos, todos eles, até nesse particular pouparão as cordas vocais. O espírito de Nelson Mandela baixará sobre os ex-presidentes, na medida em que querelas, sequelas e mesmo agressões passadas entre eles estarão momentaneamente esquecidas. Restará o silêncio, além, é claro, de saudações de cortesia formal.
Uma questão, porem, estará no recôndito do grupo: quem será o próximo inquilino da cabine presidencial de onde Dilma fará as honras de anfitriã? Ela terá o cuidado de não se referir à eleição do próximo outubro, devendo o Lula fazer o mesmo. Fernando Henrique ficará feliz por não precisar exaltar as qualidades de Aécio Neves, enquanto Fernando Collor não necessitará reafirmar sua decisão de apoiar a reeleição da atual presidente. O mesmo se dará com José Sarney. Sendo assim, se houver conversa, no máximo ela poderá enveredar pelas leituras recentes do grupo. O segundo volume da biografia de Getúlio Vargas certamente receberia elogios, lido por todos.
O mais será, no máximo, arte de enxugar gelo. Senão constrangimento, ao menos cautela. O fato de conviverem na mesma cabine demonstra aprimoramento democrático, aliás, inaugurado pelo Lula, quando levou os antecessores aos funerais de João Paulo II, no Vaticano. Nos Estados Unidos, a prática de ex-presidentes se reunirem é usual no velório de um deles, coisa que não aconteceu entre nós quando, ano passado, morreu Itamar Franco, reverenciado isoladamente por eles.
Em suma, tanto na ida quanto na volta da África do Sul, prevalecerá o silêncio quase continuado por parte dos ex-presidentes. Melhor para eles que os dois percursos se farão de noite e de madrugada.Mesmo sem dormir, pálpebras cerradas costumam caracterizar oportuno expediente político.


























