Primeira biografia do Marquês de Pombal revela versão crítica de sua trajetória
Documento inédito do século 18, editado por pesquisadores brasileiros, oferece novo olhar sobre a vida e o legado de Pombal

Em maio de 2025, a editora Temas e Debates lançou em Portugal a Primeira biografia do Marquês de Pombal, obra cuja autoria é atribuída a José Francisco Miguel António de Mendonça (1725-1808), reitor da Universidade de Coimbra entre 1780 e 1785 e Cardeal-Patriarca de Lisboa a partir de 1786.
A edição foi coordenada pela paleógrafa Alícia Duhá Lose, professora da Universidade Federal da Bahia, em parceria com o pesquisador Rafael Magalhães.
O manuscrito, provavelmente escrito entre o início do reinado de Dona Maria I e Dom Pedro III e os últimos anos de vida de Pombal, chegou até nós por meio de três testemunhos: um considerado original e dois reconhecidos como cópias diretas.
Estruturado em 86 capítulos – sendo 83 numerados e 3 não numerados –, o relato vai do nascimento de Sebastião José de Carvalho e Melo até acontecimentos ligados à família real, passando pelas principais medidas de sua administração, como a reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755, a reforma da Universidade de Coimbra, a modernização da marinha e os embates com a Companhia de Jesus.
Para a pesquisadora Alícia Lose, que conversou com o Aventuras na História, a obra inaugura novas perspectivas sobre a figura de Pombal. A primeira delas diz respeito ao local de nascimento do estadista, identificado como Sernancelhe. A indicação é inédita, já que até então os historiadores só tinham conhecimento dos registros de batismo, que apontavam para Lisboa.
Além disso, o fato de o texto ter sido escrito por alguém que conviveu de perto com o Marquês, mas que não era seu admirador, permite uma visão mais crítica e menos heroica de sua trajetória, revelando também aspectos que desabonam sua imagem.
Tom de crítica
A professora destaca que o manuscrito vai além da biografia pessoal para se tornar uma espécie de relatório da administração pombalina, indissociável do reinado de Dom José. Assim, ao mesmo tempo em que trata da vida do Marquês, o texto descreve de maneira minuciosa a condução do reino, articulando vida privada, família real e política de Estado.
O contexto de produção também é revelador: o texto foi escrito quando Pombal já estava afastado do poder e exilado em sua vila natal. Para Lose, isso explica o tom de crítica presente em toda a narrativa.
As críticas diretas e claras e muitas só poderiam ser escritas na presença de um homem como Pombal se seu poder estivesse enfraquecido. O que significa dizer que este texto só existe porque foi escrito neste período e não existiria, com essas características, se tivesse sido escrito em outro momento”, observa.

Um longo processo
O processo de pesquisa foi longo e repleto de desafios. Como destacou Lose, o trabalho começou com a edição de um códice, mas, à medida que novos manuscritos de mesmo teor foram surgindo, os pesquisadores tiveram de recomeçar o trabalho mais de uma vez. Ao todo, foram analisados três testemunhos do texto.
“A cada nova leitura integral dos manuscritos para o estabelecimento do texto, aprendíamos mais e víamos coisas que haviam passado despercebidas. O que, invariavelmente, foi fazendo o trabalho ficar cada vez mais profundo e detalhado. Por outro lado, passagens incômodas, perturbadoras, foram lidas 7 ou 8 vezes (confesso que perdi a conta) e em todas elas as sensações eram as mesmas”, relembra a pesquisadora.
Outro desafio foi a unificação dos três manuscritos em uma versão final, atualizada ortograficamente, exigindo rigor e inúmeras revisões.
Alguns episódios descritos no documento chamaram a atenção da pesquisadora. É o caso das medidas adotadas após o terremoto de 1755 e a instalação da estátua equestre de Dom José em Lisboa. Já a passagem mais incômoda, segundo ela, é o relato do suplício de João de Pele, que teria sido condenado injustamente.
Um ponto particularmente interessante foi a descoberta de uma cópia no Mosteiro de São Bento da Bahia, fruto da doação de Cláudio de Brito Reis.
Embora a instituição seja claustral e de acesso restrito, o manuscrito acabou sendo localizado quase por acaso na biblioteca do arquivo, o que permitiu resgatá-lo para a pesquisa. Os outros dois testemunhos — um na USP, adquirido por José Mindlin, e outro no Arquivo da Universidade de Coimbra, pertencente a João Jardim de Vilhena — já se encontram em instituições de caráter público e acessível.

























