Reunião secreta da santíssima trindade de extrema direita
“Com o tamanho que tem, as riquezas que tem, a população ignorante que tem, o Brasil é um prato cheio pra nós”
Por Sebastiao Nunes
– Mas você tinha de fazer tanta merda, Johnson? – reclamou Donald Trump.
– Merda quem fez foi você! – rebateu Boris Johnson, o primeiro-ministro inglês. – Você sabe muito bem que o povo inglês detesta os ianques intrometidos.
– Mas você nem inglês é, nasceu em Nova Iorque.
– E você, que não passa de um nazista alemão transplantado?
– Xiii – sussurrou de fora para dentro Jair Messias Bostonaro. – Pensei que só na minha família e com meus cupinchas que a gente fazia merda.
– O problema todo, Trump, foi sua declaração no G7 – alfinetou Johnson. – Por que tinha de me elogiar em público? Não imaginou que pegaria mal?
– Tá certo, não devia – arrependeu-se Trump. – Mas foi um elogio autêntico, de coração aberto, a um parça que eu tinha entusiamo em apoiar.
– Mas não deu certo, porra! – Johnson estava mais azedo do que nunca. – Não deu e por conta disso o Brexit sem acordo tá ameaçando afundar.
– E a culpa é minha, cacete? – espantou-se Trump. – Não será melhor culpar sua arrogância, sua pressão sobre a rainha e sobre o Parlamento? A culpa foi sua!
– Parem com isso vocês dois, por favor – implorou Bostonaro, mesmo sabendo que tinha de medir as palavras. Afinal, ele era só presidente de um quintal grande no terceiro mundo e não podia se meter a besta.
– Tá vendo? – aprovou Johnson. – Até o Jair Messias, que só tá aqui pra gente discutir como dividir a Amazônia, concorda comigo.
– Dois merdas, é o que vocês são – arrotou Trump. – Vocês não passam de dois merdas sem importância nenhuma. Você, Johnson, é só um primeiro-ministro que cai do cavalo se continuar fazendo besteira. E o Jair Messias – quem é o Jair Messias? Um pobre coitado pedindo penico pra nós.
Que doeu no Bostonaro, doeu. Mas ele preferiu ficar calado.
QUEM PODE, PODE
– Vamos parar com essa discussão sobre o Brexit e falar do Brasil – acalmou-se Trump. – Foi pra isso que convoquei esta reunião.
– Começa então – propôs ainda amuado Johnson. – O que é que você quer?
– O Jair Messias precisa conter essa língua comprida – começou Trump. – Sem se conter, nos meteu numa fria. Além das merdas que faz na presidência, ainda foi se intrometer na Argentina, botando o idiota do Macri numa gelada.
– Não tô sabendo – admitiu Johnson. – Que foi que ele fez?
– Além de declarar apoio ao Macri, que tá mais perdido que cego em tiroteio, disse ainda, com todas as letras, que “a Argentina começa a trilhar o rumo da Venezuela porque, nas primárias, bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder”.
– Ué! – estranhou Johnson. – Mas não é verdade?
– Verdade é, mas não precisava falar em bandidos de esquerda – disse Trump. – A besta do Jair Messias não devia ser tão claro. A esquerda na Argentina é forte, sempre dá um trabalho danado. Provocada, é ainda pior. E eles lá sabem que nosso amigo aqui tá fazendo besteira atrás de besteira, deixando claro que é extrema direita no duro.
– De fato – concordou Johnson. – Acho que ele devia se limitar a destruir o que resta do Brasil. É mais do que suficiente.
DESTRUINDO O RESTO
– Isso mesmo – apoiou Trump. – Com o tamanho que tem, as riquezas que tem, a população ignorante que tem, o Brasil é um prato cheio pra nós.
– Beleza, é isso mesmo – aprovou Johnson. – Por enquanto basta o Jair Messias acabar o serviço no Brasil, arrasando tudo, obrigando a oposição a ficar quieta e deixar o resto por nossa conta.
– Mas você tá correndo o risco de perder – lembrou Trump.
– Não perco – garantiu Johnson. – Ainda que perdesse, o novo primeiro-ministro será conservador e os planos continuarão os mesmos.
– Te acho um banana – atreveu-se a arrotar Bostonaro. – Se tivesse a firmeza que eu tenho, se falasse duro que nem eu…
– Ah, banana, é? – ironizou Johnson. – No seu país de merda você pode gritar à vontade porque a oposição tá mortinha da silva. Queria ver enfrentar os trabalhistas da Inglaterra e falar grosso com eles.
– Falo grosso com quem quero – afirmou Bostonaro. – Desde que era capitão da ativa que falava grosso.
– E por isso foi expulso do exército – disse Trump com um sorriso. – Só mesmo num país de bananas um ex-capitão chega a presidente.
– De fato – concordou mais uma vez Johnson. – Só que em vez de bananinha é bananão. Se a gente botar a mão naquele bananão…
Trump e Johnson soltaram uma gargalhada das mais irritantes e Jair Messias Bostonaro, irritado como de hábito, ficou pensando se devia reagir à altura.
Mas Bostonaro ficou em silêncio, rabo entre as pernas, tentando decidir para qual país seria melhor fugir com a família e os parças, repetindo a velha e humilhante fuga dos ditadores dos bananões.


























