Salvo pelo cigarro: as fugas da morte e a premonição de Guimarães Rosa
Um dos maiores nomes da literatura brasileira, Guimarães Rosa sobreviveu a um bombardeio na Alemanha em 1941 ao sair para comprar cigarros; entenda!

A trajetória do renomado escritor brasileiro João Guimarães Rosa foi marcada por episódios que parecem oscilar entre o acaso, o misticismo e a constante proximidade da morte. Diplomata, médico, escritor e um dos nomes centrais da literatura brasileira do século 20, Rosa cultivava uma relação intensa com temas como destino, espiritualidade e loucura — elementos que atravessaram sua vida pessoal e também sua obra.
Entre histórias de ataques aéreos na Alemanha nazista, pressentimentos sobre a própria morte e supostos pactos com o diabo, o autor de ‘Grande Sertão: Veredas’ construiu ao redor de si uma aura quase lendária.
Salvo pelo cigarro
Um dos episódios mais conhecidos de sua vida ocorreu em Hamburgo, na Alemanha, em 1941, quando Rosa atuava como cônsul-adjunto do Brasil. Durante a madrugada, acordou com vontade de fumar e percebeu que não havia cigarros em casa. Então vestiu um sobretudo sobre o pijama e saiu para comprar um maço em um café da vizinhança.
Enquanto estava fora, sirenes alertaram para um ataque aéreo, obrigando-o a buscar abrigo. Ao retornar para casa na manhã seguinte, encontrou o prédio onde morava destruído pelos bombardeios. “Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida”, ironizou mais tarde.
Outros acasos
Vale mencionar que essa experiência não foi a única vez em que escapou da morte durante sua estadia na Alemanha. Em outra ocasião, um ataque atingiu parcialmente o consulado brasileiro onde trabalhava. O edifício ficou comprometido, e as autoridades alemãs proibiram a entrada de funcionários devido ao risco de desabamento. Ainda assim, Rosa desobedeceu à determinação, entrou no prédio e recuperou documentos confidenciais guardados no cofre. Pouco depois de sair do imóvel, o restante da estrutura desabou.
Segundo relato registrado por sua filha Vilma no livro ‘Relembramentos’ (1983), o escritor atribuía a sobrevivência a uma espécie de propósito maior. “Deus me reservava uma missão. Por isso, salvou-me da morte duas vezes”, confidenciou à primogênita.
No entanto, o jornalista Leonêncio Nossa, autor da biografia ‘João Guimarães Rosa – Biografia’, considera que os episódios foram muito mais numerosos. “Rosa escapou da morte incontáveis vezes. Uma delas foi em 1958 quando sobreviveu a um infarto, aos 50 anos”.
A obra de Nossa, com 736 páginas, é considerada a primeira grande biografia dedicada exclusivamente ao escritor mineiro. O livro divide a trajetória de Rosa em três fases: o médico, entre 1908 e 1938; o diplomata rebelde, de 1938 a 1951; e o soldado, período entre 1951 e 1967, conforme repercute a BBC.
A estrutura foi inspirada em uma declaração do próprio autor ao jornalista austríaco Günter Lorenz, em 1965: “Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte”.
Posse na ABL
Entre as histórias mais emblemáticas da vida de Rosa está a suposta profecia de uma cigana sobre sua morte. Supersticioso, ele acreditava que morreria no dia em que tomasse posse na Academia Brasileira de Letras. Eleito em agosto de 1963, adiou a cerimônia por quatro anos, três meses e oito dias. Apenas em 16 de novembro de 1967 decidiu vestir o fardão da ABL. E, apenas três dias depois, morreu.
Os dias anteriores à posse foram marcados por despedidas e inquietação. Rosa pediu à filha Vilma que, caso a premonição se concretizasse, entregasse ao editor José Olympio os originais de ‘Estas Estórias’ e ‘Ave, Palavra’. Também demonstrou preocupação diante da neta Maria de Lourdes, conhecida como Busi: “Não se esqueça de mim”.
Segundo Leonêncio Nossa, Rosa chegou a combinar um sinal secreto com Austregésilo de Athayde, então presidente da ABL: caso levasse a mão à testa durante o discurso, a sessão deveria ser interrompida imediatamente. “Você sabe, talvez seja bobagem, mas o mau pressentimento não me abandona”, comentou.
No próprio dia da cerimônia, hesitou em sair de casa. “Não vou”, disse ao amigo Geraldo França de Lima. “Vou morrer”. Durante o trajeto até a Academia, pediu ao motorista que desse voltas extras no quarteirão antes da chegada ao prédio da instituição, no Centro do Rio de Janeiro. “Para você, não tenho segredos”, afirmou novamente ao amigo. “Não chego a dezembro”.
O discurso de posse durou uma hora e quinze minutos e ficou marcado por frases que entrariam para a história literária brasileira, como “a gente morre é para provar que viveu” e “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. Ao voltar para casa, exausto, soltou um suspiro de alívio: “acabou, graças a Deus…”.

Mas o temor persistia. Três dias depois, em um domingo, começou a sentir fortes dores no peito. Telefonou para a secretária, Maria Augusta, e disse: “Estou morrendo”. Quando ela respondeu que chamaria um médico, ouviu de Rosa: “Esquece que sou médico? Sei que estou morrendo”. Pouco depois, foi encontrado caído no escritório por Aracy e pela neta Vera. Havia sofrido um infarto fulminante.
Pacto com o diabo?
O medo da morte coexistia com um fascínio permanente pelo sobrenatural. Dias antes da posse na ABL, segundo relato da arquiteta Nora Rónai ao biógrafo Leonêncio Nossa, Rosa acreditava ter feito um pacto com o diabo em algum momento da vida. A ideia não era totalmente metafórica. Em entrevista ao jornalista Ascendino Leite, publicada em 1946, o escritor admitiu ter feito “pactos provisórios com o diabo”.
Para o pesquisador Gustavo de Castro, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e autor de outra biografia sobre Rosa, o interesse do escritor pelo tema era profundo. “O pacto de Riobaldo com o diabo em ‘Grande Sertão: Veredas’ é de uma riqueza de detalhes impressionante. Rosa era um profundo conhecedor do tema”.
O diabo, aliás, ocupava espaço central em sua biblioteca e em suas reflexões literárias. Em 1966, durante um congresso de escritores em Nova York, Rosa confidenciou ao poeta Haroldo de Campos: “quando me vem o texto, fico nu, rolo no chão, luto com o demo de madrugada no meu escritório e depois, naquele impulso, escrevo”.
Haroldo de Campos ficou impressionado com a intensidade da declaração. “Quando ele falava do demo, não era uma metáfora. O horror da página em branco. Era uma coisa presencial, encarnada”, observou.
Grande sertão
A construção de ‘Grande Sertão: Veredas’ também esteve ligada às experiências do escritor pelo interior de Minas Gerais. Em 1952, Rosa participou de uma expedição de nove dias pelo sertão mineiro, percorrendo cerca de 240 quilômetros entre Três Marias e Araçaí. Durante o trajeto, registrou observações em seis cadernetas.
Segundo a pesquisadora Mônica Meyer, autora de ‘Ser-Tão Natureza’, algumas passagens do romance foram inspiradas diretamente nessa viagem. “Mas, há passagens do livro que reproduzem trechos da viagem: o lugar aprazível onde Riobaldo conhece Otacília, por exemplo, é inspirado na Fazenda Santa Catarina e na Vereda São José”.
Diplomacia e legado
Além da literatura, Rosa também construiu uma carreira sólida na diplomacia. Serviu em Hamburgo entre 1938 e 1942, período em que conheceu Aracy de Carvalho, secretária do consulado brasileiro. Juntos, ajudaram judeus perseguidos pelo nazismo a fugir para o Brasil.
“Mais de uma vez, expressou mal-estar com a discriminação aos judeus”, afirma Georg Otte, vice-diretor da Faculdade de Letras da UFMG, referindo-se ao inédito Diário de Hamburgo. Segundo relatos familiares, Rosa chegou a desenhar uma caricatura de Hitler enforcado, guardada em seu escritório e posteriormente desaparecida.
Mesmo décadas após sua morte, a obra e a figura de Guimarães Rosa seguem despertando interesse acadêmico e popular. O Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, recebe cerca de 25 mil visitantes por ano. Já a Oficina de Leitura João Guimarães Rosa, criada pela USP em 2003, mantém encontros semanais dedicados à leitura de seus livros.
A permanência desse fascínio talvez esteja ligada justamente à combinação rara entre erudição, imaginação e mistério que marcou sua trajetória. Entre ataques aéreos, pressentimentos e pactos simbólicos, Rosa transformou a própria existência em um território tão enigmático quanto os sertões que descreveu em sua literatura.

























