Teresa Gouvarinho, a condessa de Gouvarinho, da obra “Os Maias” (1888), de Eça de Queirós, não sendo uma das figuras principais do livro, é uma das mais ricas e carismáticas. Uma das maiores personagens secundárias do romance português. E uma das mais injustiçadas, também.
Enquanto a sua rival, Maria Eduarda, era vista como uma deusa perfeita e superior, sensata, equilibrada, doce, imbuída de altos princípios morais, vítima inconsciente do incesto, que enfrenta com dignidade, Gouvarinho, traindo o marido com frieza e elegância, sem escrúpulos nem remorsos, simboliza as mulheres adúlteras, corporiza a decadência moral e a ausência de valores.
A condessa era uma trintona, inglesada, de cabelos crespos, ruivos e quentes, narizinho curto e petulante, boca larga, olhos escuros e brilhantes, pele clara, fina e doce, deliciosamente bem feita de corpo, a cheirar a verbena, sensual e provocante, apaixonada e impetuosa, mas não só. Era igualmente uma mulher altiva, audaz, corajosa, inteligente, instruída e de bom gosto, com acesso à fina-flor lisboeta, que, apesar de viver no século XIX, falava de igual para igual com os homens sobre política, arte, religião ou sociedade.
Casada com o conde de Gouvarinho, ministro e par do Reino, personagem que representa o político poderoso, mas incompetente, ignorante, fútil, vaidoso, maçador, ocioso, a quem se uniu por conveniência, cumprindo a vontade do pai, um comerciante inglês rico do Porto, aliando o seu dinheiro ao dinheiro e ao título nobiliárquico do marido, a condessa vivia uma vida burguesa, entediante, pouco atraente.
O casamento, o marido, o filho, a casa, receber, estar e conversar, uma ou outra leitura, um pequeno passeio, uma ida ao teatro, uma saída às compras, um jantar, eram as suas obrigações. O adultério, ainda assim, foi a forma de dar algum interesse e emoção à sua vida.
Teresa conheceu Carlos da Maia, um rapaz solteiro, com boa aparência, rico, no Teatro de São Carlos, no intervalo de uma ópera, onde se encontrava na companhia do marido. Carlos, apesar de a ter achado “picante”, de na sua imaginação esta ter brilhado “mais e melhor que todas”, ao fim de três semanas de encontros clandestinos, depois de ter “gouvarinhado” com fartura, descartou-se dela. Usou-a até se fartar e senti-la como um peso de que se livrou por paixão a outra. Passando, então, a considerá-la uma mulher sem qualquer interesse, demasiado fútil.
Ela, furiosa, má perdedora, ainda tentou reconquistá-lo, porém, viu frustrada a sua intenção. Acabou pagando o preço do abandono e da humilhação do amante. Depois, quando tudo se apazigou, voltou para a paz podre do sagrado matrimónio.