Barriga de Aluguel: MPPE identificou transações suspeitas de R$ 60 milhões e 743 saques fracionados de R$ 3,4 milhões em investigações de empreiteiras contratadas pela gestão João Campos

Inquérito anulado por juiz do caso fura-fila e depois trancado por Gilmar Mendes em torno de contratos da gestão João Campos contém robustas evidências que deveriam embasar continuidade das investigações

Do Blog Manoel Medeiros

Anulado em decisão tomada em poucas horas pelo juiz Rildo Vieira Silva, o inquérito da Operação Barriga de Aluguel, sob comando do Ministério Público do Estado de Pernambuco (MPPE), reúne evidências relevantes para continuidade das investigações em torno de um esquema de empreiteiras. O inquérito está trancado até hoje por decisão monocrática do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes a pedido do advogado do Diretório Nacional do PSB.

O juiz que deu a primeira canetada pela anulação do processo de investigação é pai do candidato nomeado como PcD no concurso de procurador judicial do Recife. A nomeação saiu poucas semanas após a anulação. O episódio ficou conhecido como escândalo do fura-fila.

MPPE identificou suspeita de lavagem de dinheiro de R$ 60 milhões e 734 saques em espécie totalizando R$ 3,4 milhões, mas inquérito da Barriga de Aluguel segue trancado

De acordo com despacho da própria Vara Regional de Crimes Contra o Patrimônio Público da Capital, que o Blog teve acesso, datado de 26 de novembro de 2025, a anulação do inquérito do MPPE determinada por Rildo Vieira Silva “aparenta ter se distanciado da realidade probatória dos autos”.

A peça, que defende a continuidade do trabalho investigativo do MPPE, registra que a decisão inicial pelo deferimento da operação, assinada pela juíza Roberta Vasconcelos Franco Rafael Nogueira, que não compõe mais a Vara, “é de fundamentação exemplar” e atende “plenamente” aos ditames da Constituição Federal e do Código de Processo Penal.

Operação do MPPE foi realizada em 14 de agosto de 2025 a partir de “decisão exemplarmente fundamentada” – Foto: MPPE

O juiz, que decidiu pela anulação de um inquérito com vários volumes em poucas horas, responde a processo disciplinar na Corregedoria Nacional de Justiça.

No embasamento da própria Vara Regional de Crimes Contra o Patrimônio Público da Capital, desconstruindo a decisão controversa de Rildo Vieira Silva, são elencados quatro motivos que justificam a necessidade de continuidade das investigações com base nos achados do inquérito do MPPE, iniciado ainda em 2024.

  1. Indícios de Fraude em Licitação e “Barriga de Aluguel”:  utilização estratégica de Atas de Registro de Preços de consórcios de Minas Gerais para conferir aparência de legalidade a contratações dirigidas, sendo R$ 99.447.163,04 referentes a cinco contratos de adesão à Ata da AMMESF e R$ 19.216.726,56 referentes a outros dois contratos via Ata da CODANORTE. Foi destacado que os municípios consorciados originários praticamente não utilizaram as atas, indicando que estas foram estruturadas para atender a “caronas externos”, sendo a Prefeitura do Recife a principal beneficiária
  2. Suposto Conluio Operacional e Simulação de Concorrência:  fortes indícios de conluio entre a empresa mineira Sinarco e as pernambucanas Alca Engenharia e Max Construções. Apontou a surpreendente atuação de um sócio da Alca e Max como representante da Sinarco, detendo procurações e subscrevendo boletins de medição, o que sugere uma estrutura formalmente fragmentada, mas operada de modo centralizado e coordenado.
  3. Movimentações Financeiras Atípicas (Lavagem de Dinheiro): A decisão detalhou um complexo sistema
    de dissimulação de recursos públicos, revelado pelos Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), incluindo:
    Transferências de mais de R$ 60 milhões da Sinarco para a Alca Engenharia após recebimentos da Prefeitura do Recife. O uso de possíveis “laranjas” de baixa renda, como um empregado que, com salário de R$ 2.344,16, recebeu R$ 4.323.776,01. A realização de 743 saques em espécie, totalizando R$ 3,4 milhões, com valores fracionados para burlar os mecanismos de controle. O envolvimento de um servidor comissionado da Prefeitura do Recife no recebimento indireto de valores, e movimentações financeiras incompatíveis do sócio da empresa contratada para fiscalizar os serviços da Sinarco.
  4. Antecedentes da Principal Empresa Investigada: Por fim, foi salientado que a Construtora Sinarco já foi
    investigada na “Operação Tudo Nosso” em Minas Gerais, por envolvimento em esquema de corrupção com
    práticas semelhantes, o que reforça a gravidade dos indícios e a necessidade de uma apuração rigorosa.

Embora tenha gravado um vídeo afirmando que “não tolera corrupção”, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), tem jogado todas as cartas para manter travada a investigação que diz respeito exclusivamente ao período em que foi o responsável pelo comando da capital pernambucana.

O caso envolve ainda suspeitas de utilização de parte desses recursos para compra e distribuição de material de campanha em 2024 e envolveria amigos próximos do prefeito, que ocuparam cargos chaves na Secretaria de Saúde do Recife enquanto os pagamentos para as empreiteiras eram realizados. Também há suspeita de que as empreiteiras receberam mais de uma vez pelo mesmo serviço. Os investigados possuem patrimônio milionário e são conhecidos por muita ostentação na vida social.

QG de algumas das empreiteiras investigadas na Operação Barriga de Aluguel fica em Campo Grande, Zona Norte do Recife

A nomeação do filho do juiz que deu o primeiro passo para anular as investigações – com uma decisão em seis de novembro – teria sido a primeira estratégia da cúpula do poder municipal para travar as investigações. Como uma decisão posterior de uma juíza da mesma vara modificou a decisão de Rildo Vieira, levou-se o caso ao segundo grau, que em janeiro – por votação colegiada e unânime da 2ª Vara Criminal – deferiu a continuidade dos trabalhos do MPPE. Dois dias depois, em 30 de janeiro passado, Gilmar Mendes trancou novamente as investigações.

Gilmar Mendes homenageado pelo prefeito João Campos em agosto de 2022 – Foto: Edson Holanda

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